Ver para olhar se constitui de um conjunto de 28 cadeiras, bancos e poltronas em uma fila mais ou menos organizada. Sobre cada um desses assentos, como se estivesse sentada, repousa uma caixa de madeira. Um facho de luz e uma longa lança de metal atravessam, como duas linhas horizontais, as caixas de madeira, que possuem dimensões variadas. O potente refletor, de onde parte a luz, é sustentado por um forte tripé, e é deste que também parte a lança de aço. Por trás do refletor que aponta para a fila de caixas sobre os assentos, e de onde partem a luz e a lança, está uma outra cadeira. Esta é revestida de uma “pele convulsa” – um tipo de drapeado obtido por meio de grandes parafusos visíveis. O facho de luz e a lança atravessam a fila de "caixas sentadas” por cerca de 20 metros e ao final desse périplo chegam a uma última poltrona. Esta, virada para a luz e para a lança, as intercepta. Não há nenhuma caixa nessa poltrona, que funciona ela mesma como anteparo para a luz projetada, revelando a imagem que percorreu todo o caminho e venceu os obstáculos. A lança segue com sua ponta, perfurando seu encosto.

A imagem projetada na poltrona é a de uma mulher de mãos dadas com sua pequena filha. Uma mulher grande e uma pequenina. Talvez qualquer imagem coubesse nesse lugar, que pode ser um dispositivo potencializador do olhar, porque, afinal, estaria colocando em funcionamento o dispositivo. Mas escolhi uma imagem fundamental para tornar tudo mais fundamental: uma mãe e uma filha – uma imagem absoluta para todos em geral, porque todos nasceram. Defendo que pertence àquele grupo de imagens que, emblemáticas, objetivam a nossa emoção.

Talvez saber de quem se trata, onde e quando acontece a cena fotografada não seja relevante senão para mim, afinal, tanto quanto cada elemento que participou da montagem – cada banco, cadeira adquirida ou contato da produção – é sempre revestido de significado para uma artista iconófila, que trabalha próxima à tradição surrealista dos acasos objetivos.

Ser capaz de justificar a presença de cada elemento do trabalho é uma prova interessante, porque há artistas que se recusam a falar do significado de seu trabalho, como se isso pudesse esvaziá-lo. Como acredito que o significado do meu trabalho é inatingível, posso falar sem medo, porque penso que alcançarei apenas um aspecto ou aquilo que o justificou momentaneamente; em que acreditei sinceramente durante a execução. Não duvido que esses significados verbalizáveis possam ser ditos por mim e, depois, de outro modo, se revirem em outros, talvez até opostos. Talvez as questões formais tomem a frente. De todo modo, falar sobre significado seria uma construção de sentido por pelo menos um ou dois fios, e o desejo é que a obra permita a construção de muitos outros fios de uma mesma rede de sentidos, que não escondam mais nada além daquilo mesmo que provocam.

Os assentos são suportes para pessoas – portanto, as caixas são antropomórficas. Colocadas em fila uma à frente da outra, como anteparos a serem atravessados para que algo seja olhado, mas esse algo a ser olhado é ao mesmo tempo algo que é lançado à distância por aquele mesmo que exerce o olhar. O que é visto é o que é projetado e que, para ser visto, precisa atravessar uma grande quantidade de anteparos – aqui são todos filtros antropomórficos. Aquele que vê, de onde parte esse olhar herói, é carne convulsa à vista, e grande olho. Dele também parte a lança na mesma direção do fluxo da imagem: a poltrona apaziguada, que recebe a imagem que aparece lá longe, depois de tantos obstáculos, e que vem do próprio olho que a olha. A lança é um elemento de materialidade oposta à do fluxo de luz e caminha junto a ela. Elementos de naturezas diferentes, uma etérea e outra concreta, vão caminhar juntas até a poltrona rosada. A luz se revelará como imagem, interceptada pela poltrona. Esta será perfurada pela lança. A poltrona rosada é o contraponto apaziguado da cadeira convulsa, emissora do olhar metralhadora. É o destino final da imagem – formulada dentro do olhar. E também o alvo do desejo de aniquilação.

O olhar metralhadora perfura os anteparos antropomórficos que o encaram.

Ver para olhar, como título, faz um jogo com a expressão ”Ver para crer”, em que olhar entra no lugar de crer. Essa analogia coloca olhar entre o substantivo e o verbo e o conecta com o verbo crer, relacionando-o a uma esfera mais obscura, menos explicável, ao absurdo: Tertuliano e seu “creio porque absurdo”. Isso tudo, porque desejo conectar, dessa forma, absurda, meu trabalho ao sagrado. Estou construindo uma imagem encarnada.


Cristina Salgado
agosto, 2012