MULHERES EM DOBRAS

Esculturas moles, de camadas de tecido opaco, quente, áspero, que desenha corpos estruturados pela gravidade, de modo que os músculos se moldam no vazio das dobras da pele; objetos compactos, que se propõem como rostos que invocam outras faces menos imediatas, mais obscuras, menos nítidas, mutantes; corpos derramados no chão, expondo-se languidamente, sem defesas. Essas seriam breves tentativas de descrição dos trabalhos tridimensionais que compõem a série Mulheres em dobras, construídos com tapete, tecido emborrachado e parafusos de aço inox. Esses trabalhos foram expostos na Galeria Anna Maria Niemeyer entre setembro e outubro de 2006.

O material flexível é fundamental para estruturar dobras, pregas, franzidos, que conotam as dobras, as pregas e os franzidos corporais. Mas esse mesmo material, que se associa, em algumas peças, a um tecido como pele de urso ou tufo de pelos negros, pode ser prensado, compactado. Nesse caso, os trabalhos, como núcleos densos, comprimidos, recebem o título de Rostinhos, e nas peças maiores, Marias convulsionadas. A premeditada relação de estranheza entre o título e imagem serve para afirmar que rosto ou Maria são apenas pontos de partida para a produção de significações possíveis e não excludentes para essas imagens tridimensionais, como um fluxo de significados que não deseja paralisar-se em uma única possibilidade, apenas produzir mais significações.

A cor é um componente importante em todos os trabalhos da série Mulheres em dobras. Há uma lógica das cores nos corpos: cor de carne, de pele, de músculos, mucosas, nervos, pelos.  Há o azul e o preto em algumas camadas corporais das esculturas. Podem ser cores de partes inacessíveis – certamente imaginárias.

2006