HUMANA/INUMANA

Fragmentar o corpo, dividi-lo em pedaços, perfurá-lo, juntar suas partes de outras maneiras, alterar sua funcionalidade, sua simbologia. Por meio destes e de outros procedimentos Cristina Salgado desenvolveu sua mais recente série de trabalhos, tocando em questões que, se hoje aproximam arte, ciência e tecnologia, inserem-se também em um outro problema, colocado mais propriamente aos artistas: como representar, figurar o corpo humano, depois da Pop art, da arte conceitual e, sobretudo, da body-art? (o corpo-imagem em série sem interioridade, o corpo dissolvido ou reconstruído em um enunciado, o corpo que faz de si mesmo um material para experimentações). E, ainda, depois que Lygia Clark demonstrou o corpo enquanto dentro/for a perfeitamente transformável, via objetos relacionais? Há também, no núcleo desta questão, a presença das experiências pós-1968 do multiculturalismo e do feminismo, e os desdobramentos recentes da ciência da computação e da biotecnologia, como as raízes de “uma nova organização pós-humana da personalidade (…), uma nova concepção do self, uma nova construção do que significa ser um ser humano”. Ou seja, repensar o corpo é agora enredar-se numa complexa fenomenologia, que há muito abandonou qualquer naturalidade, e ousa arriscar-se a mexer ao mesmo tempo com o entorno e consigo próprio, produzindo imagens com poder de intervenção nestas questões.

Se as imagens que Cristina Salgado constrói trazem referências de uma certa representação religiosa do corpo-humano, através do uso de ex-votos de cera como matriz para as peças fundidas em ferro, estas marcas são logo misturadas à proposição de jogos afetivos, que depreendem-se de cada uma das peças: sempre em direta relação, pedaços do corpo indicam uma pulsação qualquer que se sobrepõe à violência com que os organismos teriam sido fragmentados, perfurados, amarrados. Nesta tensão afetiva, é evidente a celebração de um certo fim do corpo-humano (embora Cristina Salgado não oculte alguma dor inerente à perda), sua re-erotização e redefinição dos afetos, a experimentação no re-arranjo de suas partes. Afinal, enquanto construções conceituais, as imagens exteriores que dimensionam a nós mesmos e ao outro são a interface complicada do social possível – a arte sempre ativamente desfazendo o denominador comum do coletivo.

As operações plásticas que inserem estes corpos fragmentados em nosso espaço de circulação são basicamente de corte, amarração e justaposição. A partir destes procedimentos, as diferentes partes são postas em relação, constituindo ora um único corpo, estranhamente composto apenas de suas extremidades (cabeças + pés ou mãos) ora dois corpos separados, em uma interação não menos estranha, que aprisiona as duas figures com violência curiosamente passiva, acolhida na quietude e maciez das almofadas de veludo: chega a surpreender quão pouco perversas seriam estas construções, em seu investimento de desejo – e aí retorna-se então ao silencioso sacrifício dos ex-votos. Mas chega-se , ao mesmo tempo, à indicação de que é essa escassez de órgãos, essa rigidez de movimentos, que permitem ao espectador a construção de uma anatomia imaginária a partir das construções, sob interferência de projeções de uma narratividade do cotidiano.

Propondo-se simultaneamente humana e inumana, a nova série de trabalhos de Cristina Salgado ressalta principalmente as tensões que atravessam esses dois campos, enquanto possibilidades de convergências, hibridizações, incompatibilidades. Imagens prontas para inserirem-se no fluxo coletivo deste final de século, trabalhando as novas formas de sentir, perceber, compreender e transformar – as afetividades novas que se anunciam frias - , neste corpo a corpo ao qual a arte empresta sua substância e delírio.

Ricardo Basbaum

 

Idéias colocadas por Jeffrey Deitch no texto para o catálogo da exposição Post Human, 1992, sa qual é também curador, em que participaram, entre trinta e seis artistas, Janine Antoni, George Lappas, Jeff Koons e Annette Lemieux.

Importante lembrar que os artistas Ernesto Neto, Marcia X e Franklin Cassaro, por exemplo, sob diferentes abordagens, também avançam nessa direção, investigando o corpo em uma relação com materiais e procedimentos, enquanto fetichização e maquinação do erótico ou como jogo formal especial e singular, respectivamente.